Aclamado patrono do teatro brasileiro, Paulo Autran ganha homenagem no CCBB

Liberdade, liberdade, peça de Millôr Fernandes e Flávio Rangel que estreou em 1965 e marcou a dramaturgia brasileira, começava com um ator bradando no palco: “Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro”. Esse intérprete, porém, extrapolou os limites da própria fala. Por sua dedicação inconteste e ilimitada aos tablados, ganhou a alcunha de “senhor dos palcos”. O reconhecimento à sua grandeza de caráter e aos infinitos matizes que imprimiu em seus personagens chegou à esfera governamental. Recentemente, ele ganhou o título de patrono do teatro brasileiro. Paulo Autran é o homenageado desta edição do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, que prossegue hoje, em sua segunda temporada, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com entrada franca.

Os convidados para dar depoimentos sobre o ator poderão construir, ao mesmo tempo, um mosaico sentimental e artístico de sua trajetória: a viúva de Autran, a atriz Karin Rodrigues, dividirá a homenagem com o amigo e parceiro do marido em diversos trabalhos, o ator e diretor Elias Andreato. Karin e Autran se conheceram durante a peça Equus, em 1975, e não resistiram à vontade de estar sempre juntos. “Aquilo foi evoluindo e, de repente, percebi que só queria ficar com o Paulo. A relação evoluiu para um companheirismo grande. Sinto muita falta dele e, se sei alguma coisa de teatro, aprendi com ele. Não tanto pelo que ele ensinava, mas por poder vê-lo representar”, admite.

As qualidades do companheiro ultrapassam o universo cênico, segundo Karin. “Me encantava o humor que ele tinha diante das coisas boas e ruins. Era um companheiro maravilhoso, inteligente e talentoso, as conversas eram ótimas, ele era de fácil convívio, estávamos no mesmo ritmo”, revela a atriz, que não vem a Brasília há cerca de uma década.

Perguntada pela curadoria do projeto sobre a companhia ideal para dividir as histórias de Paulo Autran, ela não titubeou: sugeriu o nome de Andreato, que dirigiu e atuou ao lado do casal em algumas oportunidades e acabou entrando para o círculo mais íntimo de convivência. “Ele o dirigiu nas últimas montagens (Visitando Sr. Green, Adivinhe quem vem para rezar, além do último trabalho, O avarento) e era quase da nossa família. Ao lado do produtor Germano Baía, éramos chamados de ‘os quatro mosqueteiros’. Elias estava no quarto de hospital quando Paulo morreu”, conta Karin.

Entre amigos
Os dois atores se conhecem desde a infância de Elias, mas sem qualquer intimidade. Depois de sua experiência como assistente de direção na peça Para sempre, de Maria Adelaide Amaral, Andreato foi convidado por Autran para dirigi-lo. “O que mais me surpreendeu foi a disponibilidade dele. Paulo era um ator extremamente generoso e disponível, e isso é raro. Ele me deu credibilidade como artista”, acredita.

A partir daí, o contato se estreitou. “Tínhamos uma afinidade de humor. Nos divertíamos muito juntos. Antes de tudo, ele deixou um repertório maravilhoso, era culto, teve uma formação incrível. E era muito apaixonado por teatro, queria ver todos os espetáculos, os amadores, os que eram encenados à meia-noite”, relembra o ator e diretor, que trará um texto escrito por seu irmão, Elifas Andreato, sobre a relação de parceria e amizade que estabeleceu com Paulo Autran.

Além das memórias tecidas diante da plateia, o projeto seguirá intercalando depoimentos com projeções de entrevistas e cenas originais em tributo ao ator, criadas pelos diretores Sérgio Maggio e J. Abreu. Na primeira delas, a amiga que o convidou para sua estreia profissional (na peça Um Deus dormiu lá em casa, dirigida por Adolfo Celi), Tônia Carrero, contracena com Ziembinski, um dos grandes diretores teatrais do país, enquanto conversa com ele sobre passagens da vida de Autran. Na segunda participação dos atores, novamente surge Tônia, desta vez ao lado do então marido, Adolfo Celi. Em parceria com o homenageado da noite, o casal montou uma companhia teatral, a Tônia-Celi-Autran (CTCA).

O tributo se encerra com Bibi Ferreira dirigindo Paulo em uma espécie de espetáculo no qual ele canta, dança e sapateia. No papel de todas as figuras femininas desta edição, está a atriz Silvana de Faveri. “Autran se dedicou à carreira de corpo e alma e mostrou que é possível viver do ofício de ator com muita dignidade”, destaca a atriz.

J. Abreu, ator e codiretor do Mitos do Teatro Brasileiro, divide o palco com ela, interpretando Ziembinski, Celi e o próprio Paulo. “A gente queria trazer também a Tônia Carrero, mas ela não pôde, por problemas de saúde. Nesta edição, além do Paulo Autran, quisemos homenagear todos esses outros nomes, importantes pra carreira dele e para o teatro brasileiro”, ressalta.

Reconhecimento
Em 15 de julho deste ano, o Diário Oficial da União (DOU) publicou a Lei 12.449/11, que declara Paulo Autran patrono do teatro brasileiro. A iniciativa foi do ex-deputado gaúcho Pompeo de Mattos. O título, aprovado em junho pelo Congresso Nacional, tem valor simbólico e não resulta em qualquer benefício material. “Fiquei muito contente com a honraria”, afirma Karin Rodrigues. O ator, que se formou em direito antes de começar a carreira, morreu em 2007, aos 85 anos.

MITOS DO TEATRO BRASILEIRO
Hoje, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Trecho 2, lote 22; 3108-7600). Entrada franca. Senhas distribuídas com uma hora de antecedência. Não recomendado para menores de 12 anos.

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